Coincidência.
Foi difícil pegar no sono esta noite. O cuspe ainda tinha gosto chocolate, ainda tinha cheiro de margaridas. O copo de leite não passou da língua, a língua não coube na boca. Sempre falei demais, demonstrei demais. Sou errada demais. Meus olhos me entregam, meus gestos denunciam. Amar pelas metades é parte do que sou. Não seria se não fossem pelas metades. Odiar por inteiro é parte do que aprendi a ser. Não seria de todo amor, se antes não lhe tivesse atirado mil pedras. Os dedos ruídos e machucados são pedaços do que sinto. Tem uma parte minha nos cortes dos dedos, no aranhão do rosto. Tem partes suas no roxo da perna, na ferida da alma. Levei surras de mangueiras para desistir, e mesmo quando sentiu sede, delas dei-lhe a água de beber. Esse sentimento era rogado e pregado por dores, ruídos, faz de conta. Sempre quis mais. Enquanto tu ficavas na fila do pão, eu esperava-te na fila do cinema, com pipocas e refrigerantes na mão. Os filmes nunca foram tão tristes.
Foi difícil sair da cama essa manhã. Os lençóis ficaram grudados no suor do corpo. O corpo ficou e o restante deu uma volta no quarto, abriu a janela olhou para o sol brilhante e escaldante, olhou para o corpo jogado na cama e voltou. Quando enfim levantei, escovei meus cabelos e vesti minha blusa, ao avesso. Peguei meu copo e joguei pia abaixo. O amor tem gosto de café. Por 15 minutos fiquei com a escova de dente dentro da boca. Por 15 minutos tive a sensação de limpa-lo de mim. A manhã nunca foi tão ridícula. Nunca fui tão ridícula. Recém curada dos vestígios dele, tomei chá de pancadas. Não, não gosto de apanhar, as surras que gostam de dar-me afagos. Gostam da forma como grito, da forma como peço: “Pára!”. Mas dessa vez as mesmas se cansaram. Deram-me tréguas, deram-me espaço. Tenho a leve impressão de te escutado: “Chegamos ao fim”. Até mesmo a surra disse adeus.
Passar os dias com feridas tão profundas tem se tornado difícil. Não sei mais manter o sorriso, nem ser simpática. Não consigo fingir felicidade nas esquinas, quanto menos dentro de casa. Há muito me sinto um par de olheiras. Há muito sei que sou pelas beiradas. Beiro estrelas, beiro castelos, beiro príncipes e princesas. Beiro becos, bêbados, bizarros, braços de ventríloquos. Há muito que paro em cima das poças de lama.
Ao me olhar no espelho, vi algo que não fazia parte do meu rosto. O cuspe ainda estava nele, impregnado. Nunca odiei tanto margaridas, nunca senti tanta ânsia de chocolates. Sou corpo sobre pele e osso. Sou pele ferida. Osso quebrado. Apenas corpo. Apenas adeus. Quanto ao cuspe, era apenas uma mancha no espelho.
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